sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sem massagem

atribuir ao
meu país
os atos falhos
sobre os quais pisaram
meus pés
não vou eu mesmo massagear
meus pais
aos quais não se deve incumbir
meu revés
me nego ao exercício de sentenciar
em vez de ou invés
dentre os possíveis o melhor dos quais
o Então faço dele ideal
isso, claro
se já não o és

Crepúsculo hemorrágico

O nascer e o pôr do sol
A cachoeira banho de mar
Rajada de chuva ligeira
      - vai logo alagar -
O biquini a pose o bronzeado
areia água doce coco gelado
lembrança do ultimo verão
O sangue do mosquito
      - sangue do seu sangue -
na palma da sua mão

domingo, 5 de janeiro de 2014

Não é pelos 0,20 centavos

Prefeitura municipal da minha razão
Governo estadual do meu coração
Ministério Público da minha alma
Defensoria do meu inconsciente

Nosso amor no fundo do busão
Numa faixa exclusiva
em horário de pico
E sem asfalto decente

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

(Des)infectante

O sabonete
que assegura assepsia
Deixa sua pele macia
Renovada e
com brilho
É o mesmo que cospe
no vidro
Escarra a cardina 
(nula)
ataca a limpidez
Do dia
a crosta de acidez 



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Não-feita nas horas vagas


Concebê-la 
não me induz 
ao uso do assento
caneta e papel à mão
remuneração 
à vista
mas antes sensibilidade para 
percebê-la
imaginação para 
projetá-la

Ao que

fica entendido
atendê-la
não requer
matéria em que imprimi-la
em que forjá-la
Ferro e fogo
como quer o ferreiro

Concomitante

Executá-lo
não caracteriza
o exercício laboral
nem tampouco 
negar-se à tarefa
indica o empenho promíscuo
do poeta

Contudo 

agora que dirijo
enquanto assisto
à aula
fica o poema insistente
em não ser esquecido
marreta na parede
num domingo amanhecido
até que eu decida
concretizá-lo

Apenas para dizer que

em caso de fulga
em caso de fogo
em caso de folga
A poesia é sempre um
Fazer não-feito
nas horas (           ).

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Breve Infância da Nossa História (Parte 1)

Breve História da Nossa Infância 


Éramos bárbaros, com requintes de cumplicidade
Você nem queria, eu ia
Eu nem chamava, tú vinha
Mesmo quando era preciso atravessar a cidade

Não queria outra companhia
amigo melhor era você
O Junin ainda muito menino
a Lê tava mais pra Mortícia da TV

Cê vai tomar banho de piscina
põe qualquer roupa e vambora pro Metrô
Não posso esquecer de emprestar pro tio
Chauí e Chalita, devolver Nietzsche e Foucault

Clássicos inspiravam paródias
Éramos bravos em nossas composições
De tanto rir, nem conseguíamos
cantar aquelas hilárias canções

Criatividade inabalável
até na escadaria do Municipal
Pessoa estranha por nós era zuada
e era zuada também se fosse normal

Nada modernos, comédia pastelão
do centro à favela
Quando crescer,
cê vai vender tampinha, Rodriguela

Na verdade, a família inteira brincava
inspirada na Dona Lurde
Jamais trocamos isso
por pipa, peão, bolinha de gude

Quando em casa
montávamos cabana
cabo de vassoura, lençol
aquela ponta, prende na ventana

Vamos pro Jardim São Paulo
se você faltar na escola
Amanda fica com você
então cabula e esquece a bola

Lembra aquele dia?
O campeonato de penalti...
Um banho de mangueira pro vencedor
pra refrescar a tarde quente

E a treta por causa da bolacha
Lembra dessa vez?
Brigaram com a gente
porque no pacote ficou só três

Não dá pra reclamar
Não era do melhor, mas era bom
De quando em quando até rolava
uma lata de Neston


Mas se penso em fartura
logo o tio Amaro me vem
Casa e coração
onde cabe um, cabe cem


E como tudo que nos fez bem
tão logo se foi
deixando lembrança e uma lição:
dê nome ao boi!





sexta-feira, 19 de julho de 2013

Intercâmbio

Tá ouvindo? É mais um bueiro explodindo. A tampa dele só não se vê porque inventaram logo de dropar o esgoto. É como lhe digo, meu garoto. O Rio é aqui e agora. E vamo simbora, qu'já posso ouvir o caveirão. Verão não, turco, caveirão. Não é um tanque, mas também não é qualquer uma viaturazinha não. É blindado. Preto, preto, pretão. Descendo bala pelas portinhola. É só rajada pra cima dos bandido. Um camburão fudido. Preto, verde e rosa. São as cores da nossa cidade maravilhosa. Nada de Grã-Bretanha, Londres, London. Logo ali é Marechal Rondon. Que Istambul, vai tomá no cú. Você já tá pra lá de Marrakesh. Céu de anil, puta que pariu. É primavera árabe. Olhe lá, aquele céu vermelho. "Mo num pa tropi". Tardezinha é assim. Mo num pa tropi do ce ve. Hehe. Pra vc vê. Ali é mais uma upp. Deu um tempo a malandragem, bandido agora tem que saber ceder. Ensinamo pra eles le diplomatiquê. Radical. Que mané dical. Neguin mete o pé mais não, agora é na disciplina, tratamo tudo no melhor estilo congresso nacional.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Atrás da linha amarela

Aqui no último vagão tem que ter lugar. Tem que ter lugar pra gente. Pra gente sentar. Ó, eu sento aqui na grade e faço que escorrego no trilho pra assustar. Pra te assustar, haha. Eu sempre quis me pendurar aqui em cima. Não, peraí, deixa eu ver. Tem guardinha não.

Tô cansado, quero sentar. Vim lá do Capão. Três metrô, um trem. Mais de 20 estação. 

Ainda vou até Sacomã. Aham. Pegar uma da boa. Cê curte? A favela é 500 metro depois. Já chegou a sua? Falô, vai lá.

Ae, não vai nem me desejar boa viagem?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Estopim da fiel


Só briga o fim de semana.
Ele cana. Ela dama.
Ela samba. Ele fama. Cachorro, safado, sacana.
Ele mama. Ela engana. Faz que vai mas não vai, descansa.
Ele mirabola, arquiteta, devana.
Ela desmerece, desaprova, desabona. Pra fora daqui, reclama.
Ele pela janela o barraco inflama.


Segunda-feira, o perito questiona:
Brigou com o marido?
Dotô, faltava fogo na cama...


Terça-feira, o delegado:
Tá aqui por quê, cidadão?
Dotô, pus fogo na cama!

sábado, 26 de maio de 2012

A hora em que o sino toca


 - Sabe Sarah, você é a mais bonita da sala.
 - Mas é como eu te disse, se você quer sonhar com alguma coisa, é só você ir dormir pensando nela o tempo todo.

Era tipo requisito. Everson era bom nisso. Buscar garota na porta da escola. No caminho de volta tentar conquistá-la. Sarah queria ser valorizada, moça nova já querendo ser consagrada. Ele, o desbravador. Ela, a terra não conquistada.

O intento renderia a ele uma maria-mole cor-de-ouro no bar mais nobre, então mais frequentado. Uma proeza para seu reinado.

Sarah fez as honras, foi diplomática. Ele foi logo mostrando seu bloco econômico e ela de cara aderiu ao livre comércio.

No dia seguinte, a primeira dama oficial esbravejou. Na casa branca, no lençol branco não, meu amor. Aquilo não era sangue de moça, Everson argumentou. Que deu um chute na parede enquanto dormia, o dedo até quebrou.

Mas no hospital, em vez de engessar, o médico sentenciou: o Sr. é HIV positivo.

Everson despertou.

sábado, 7 de abril de 2012

sábado, 19 de novembro de 2011

E as lágrimas do palhaço...

(Pag)ode à nova classe


A velocidade das escadas rolantes estão aquém da nossa pressa.
Mendigos querem, exigem, pizza e churros. Portuguesa e doce leite.


Transformaremos nossa quebrada em bairro nobre nem que pra isso devamos ter aqui uma, uma... uma locadora! Só com clássico. É, superomi, batima, voverine. Só os loko, só os frenético. Aí é vida!
A gente ezige, porra! Uma biblioteca com vários cd de fank, que é pra gente treinar interpretação de texto.


Tú vem com a borracha
que eu abro o meu  caderno
cdf, vem com tudo
faz verão no meu inverno


Molha o dedo na língua
e vai virando a folha
Vê se me rabisca toda
antes que o lápis encolha


Interpretação do que? Céloko. Sou mais umas oficina pra nóis tuná as nave. Aí é vida! É disso que eu tô falando!


Ixi ó, suave. Arrumei um trampo novo. Firma de marketing. O que vai funcionar lá. Eu mesmo trampo na obra.
Segunda à sexta, suave. Fim de semana é só no rolê. As novinha tudo querendo, mulekote.
Aí é vida! É disso que eu tô falando!


Os pais preocupados resolvem agir. Faixa esticada na rua principal: Aviso aos filhos: Disparos à noite, esgoto à céu aberto, biblioteca sem livros.
Nada alude à prosperidade do nosso futuro. Consumamos.

sábado, 14 de maio de 2011

Revoada ou Minuto Perplexo

Para Reynaldo Damazio
          




          Passaram incertos                              
                                                                      
          e de                                                        
            passar o                                        
          olho
                                                                 
          o que guiava                                     
                                                                 
          optou                                               
          por fazer o                                                                                                                                                        
retorno        
           
          na direção airartnoc                           
          
          nemsequerfreiou                               
               
               o
          fez   ba
               l
               ã
               o
                                    
          no embalo                                        
          seguiu o fluxo                                   
          como se humano fosse                       
          de certo                                           
          pelo panorama                                  
                                    Privilegiado                                      
          
          dançaram                                        
          
          de        faixa    outra
              uma          à


                    do céu


          sem o pisca-alerta-ligado 
          
          que no racha d'asas


          não é o da velô       
          não é o TuNaDo 
          não é o do SOMZERA 
          não é o rebaixado


          tampouco
          há ganhador
          a não ser o que
          olha pro alto e
          observa
          o balé planado
          quando
          no tráfego
          alguém pensou
          
          caraio, tá tudo travado.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Por Nadja Estevez.


Por muitas vezes quando pequena queria ir dormir na casa da minha tia
Meu primo era meu melhor amigo,..
Ele foi o único que se envolveu sem proteções
Nunca fez questão de ser um outro avulso a mim
Nós eramos o mesmo em nossas risadas
Quando ele dormia, o obscuro vinha falar comigo
e eu chorava chorava
até minha tia ter que me levar de volta a casa de minha avó
Isso continua acontecendo
Sem vó nem primo nem tia
Apenas passo noites fumando
matutando como pular essa sacada
 ir ao bar mais proximo
tomar uma pinga e
Esperar o primeiro trem...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Não sei

Já tentei inventar um passado
para que lá eu a fixasse
e, no entanto, você tem me acompanhado a cada dia. 
Te esquecer não queria, você me fez também. 
É que nosso amor era só um pseudo-puro-amor. 
Ou era puro e nós o poluímos(?). 
Ação do Homem... 
Pra que negar que não era mesmo tanto? 
Mas, não foi perda de tempo. 
De qualquer forma, preciso saber agora
 se te assumo ou se crio heterônimos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A pedra fica, a água vai. A pedra fica, a vida vai.

Fabiano. Está agora em vastidão de águas. Tratou de preenchê-la com sete filhos dos quais três morreram. Caseiro. É guia das cachoeiras. Também. Lá no Refúgio das Sete Cachoeiras. Trabalho por moradia. Trabalha pela casa. Trinta reais por cada trilha. Seis horas cada trilha. Seis dias por semana. A perna fica que não agüenta. Isso em alta temporada. Em baixa, é uma trilha a cada fim de semana e olhe lá, dá cento e vinte conto no mês. Aí fudeu de vez. Fabiano não repara no céu estrelado faz tempo. Tanto faz. Ele quer mais dois meninos. Tem um só. O resto é menina. Agora ele quer ainda mais. Agora que Zeus morreu. O cachorro que mais gostava dele lá onde ele trabalha. Onde trabalha e mora. Tem nem pra onde correr. Pensa que casa é refúgio? É nada. Qualquer hora toca o rádio, o walk-talk. É hospede chegando, é a porra toda pra fazer. Puta encheção. Mó cara de sono lá ele e a Nice, a mulher dele. Não é reclamando não, o foda mesmo é não ter outra opção.


domingo, 24 de outubro de 2010

Engomado

Percebo que há
Em tudo que faço
um pouco daquilo e disto
O terno-padrão me encaixota
Mas me deixa vistoso
assim que o visto!

Percebo que há
em tudo que faço
ônus e bônus
O nó da gravata nada mais é
que apoio para o queixo
enquanto durmo no ônibus!

Percebo que há
em tudo que faço
viés e revés
Os sapatos nada mais fazem
que me escaparem
após calçá-los aos pés!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

"Vale mais que um trocado"

Eu os avistei de longe e imaginei que aguardavam o semáforo fechar para atravessar a avenida, talvez estivessem indo atrás de um mandado carregado, talvez caído no parque. 

Vermelho.

O corinthiano segurava uma lata de linha, menos de um tubão. Da dupla, foi ele quem tomou à frente:
- Tio, me dá uma moeda.
Inclinei a cabeça procurando já respondendo:
- Não tenho.

Na porta do passageiro, um dos livros favoritos do meu filho, O pobre corinthiano careca. 
- Amor, pega aí.

Quando voltei, não o vi, olhei pra trás, ele já estava no terceiro carro. Apressei aquele que o acompanhava, temendo que o farol abrisse:
- Chama o corinthiano, chama o corinthiano.
- Márcio, vem aqui, tá te chamando.

Ele correu, se aproximou. Ignorei o verde:
- Sabe ler?
- Sei.
- O que está escrito aí?
- O pobre corinthiano careca, respondeu sorrindo.
- É seu. 

Engatei a primeira e vi pelo retrovisor  o começar de uma boa leitura.


Não foi ideia minha. A atitude me ocorreu depois de ler esta reportagem.

E o único problema foi convencer o dono do livro de que doá-lo a outra criança foi algo bom.


sábado, 3 de abril de 2010

Sempre a Mesma Saudade

Bvrrr
-Mensagem no celular,
               bvrrr
será que é ele?
bvrrr
Amor, onde vc tá?