quarta-feira, 23 de março de 2016

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Malícia

Sou eu de moto. Sou eu, te mato. Só eu de modo. Soturno. No ponto eu não durmo. Se acusado, me enturmo. Sou amigo e trabalho com homens que calçam coturno. Lá me chamam Sargento Saturno, não aceito viés. Tá tudo bem arranjado no meu sistema de quartéis.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Essa rua não é sua

Toda criança se espanta, se assusta, se aborrece, entristece. Uma lágrima quase escorre pela via que não lhe pertence; sobre a qual desfila a bicicleta ao asfalto. Uma máquina lhe ameaça tomar a infância de assalto. De Guarulhos a Baixada Fluminense.
Toda criança se ressente. Mesmo a criança adolescente. Quando se dá conta de que, para o mundo, sua existência é indiferente.
É curioso, mas não há quem lhe antecipe esse impacto comovente. Ela vai descobrir sozinha quando aquele carro se jogar à sua frente.

Muito além do estilhaço

Pareço contraditório. 
Dizem que destruo lares, que alegro lugares. Mas nesses casos sou apenas um intermediário.
Ora meio vazio, ora meio cheio, a dose certa para quem veio, a dose certa na veia.
Cansado de polêmica, espero um dia voltar a ser grão de areia.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Jardim de Crédito

o mundo é um livro de colorir
moldado, pré-diagramado
feito para adultos, imperfeito para crianças
pessoas são lápis de cor, colorem
mas as pontas estão quebradas
e o uso do apontador não está gratuito

sábado, 23 de maio de 2015

Não vendi o almoço

não descarto minha hospitalidade. mas minha bem-querença não me trai a lembrança, isso não é obra de marceneiro, isso é obra do carnê de cobrança.
quis pagar quanto? eu, nunca tive nome, nunca pude. repare bem, olha a fartura, perceba minha virtude.
não lhe sou ingrato, e já que você fez por merecer, será meu convidado esta noite, para um jantar que não vai acontecer.

Atenção




o leviatã emperra 
sua mente
a razão diz 
"pare" 
o coração diz 
"siga em frente"

sexta-feira, 22 de maio de 2015

domingo, 9 de novembro de 2014

Shoe Tzu

O último acabamento da casa foi um olho mágico na porta. Mas reconhece sua chegada tão logo identifica a frequência do salto alto rufando nos corredores do condomínio.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sem massagem

atribuir ao
meu país
os atos falhos
sobre os quais pisaram
meus pés
não vou eu mesmo massagear
meus pais
aos quais não se deve incumbir
meu revés
me nego ao exercício de sentenciar
em vez de ou invés
dentre os possíveis o melhor dos quais
o Então faço dele ideal
isso, claro
se já não o és

Crepúsculo hemorrágico

O nascer e o pôr do sol
A cachoeira banho de mar
Rajada de chuva ligeira
      - vai logo alagar -
O biquini a pose o bronzeado
areia água doce coco gelado
lembrança do ultimo verão
O sangue do mosquito
      - sangue do seu sangue -
na palma da sua mão

domingo, 5 de janeiro de 2014

Não é pelos 0,20 centavos

Prefeitura municipal da minha razão
Governo estadual do meu coração
Ministério Público da minha alma
Defensoria do meu inconsciente

Nosso amor no fundo do busão
Numa faixa exclusiva
em horário de pico
E sem asfalto decente

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

(Des)infectante

O sabonete
que assegura assepsia
Deixa sua pele macia
Renovada e
com brilho
É o mesmo que cospe
no vidro
Escarra a cardina 
(nula)
ataca a limpidez
Do dia
a crosta de acidez 



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Não-feita nas horas vagas


Concebê-la 
não me induz 
ao uso do assento
caneta e papel à mão
remuneração 
à vista
mas antes sensibilidade para 
percebê-la
imaginação para 
projetá-la

Ao que

fica entendido
atendê-la
não requer
matéria em que imprimi-la
em que forjá-la
Ferro e fogo
como quer o ferreiro

Concomitante

Executá-lo
não caracteriza
o exercício laboral
nem tampouco 
negar-se à tarefa
indica o empenho promíscuo
do poeta

Contudo 

agora que dirijo
enquanto assisto
à aula
fica o poema insistente
em não ser esquecido
marreta na parede
num domingo amanhecido
até que eu decida
concretizá-lo

Apenas para dizer que

em caso de fulga
em caso de fogo
em caso de folga
A poesia é sempre um
Fazer não-feito
nas horas (           ).

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Breve Infância da Nossa História (Parte 1)

Breve História da Nossa Infância 


Éramos bárbaros, com requintes de cumplicidade
Você nem queria, eu ia
Eu nem chamava, tú vinha
Mesmo quando era preciso atravessar a cidade

Não queria outra companhia
amigo melhor era você
O Junin ainda muito menino
a Lê tava mais pra Mortícia da TV

Cê vai tomar banho de piscina
põe qualquer roupa e vambora pro Metrô
Não posso esquecer de emprestar pro tio
Chauí e Chalita, devolver Nietzsche e Foucault

Clássicos inspiravam paródias
Éramos bravos em nossas composições
De tanto rir, nem conseguíamos
cantar aquelas hilárias canções

Criatividade inabalável
até na escadaria do Municipal
Pessoa estranha por nós era zuada
e era zuada também se fosse normal

Nada modernos, comédia pastelão
do centro à favela
Quando crescer,
cê vai vender tampinha, Rodriguela

Na verdade, a família inteira brincava
inspirada na Dona Lurde
Jamais trocamos isso
por pipa, peão, bolinha de gude

Quando em casa
montávamos cabana
cabo de vassoura, lençol
aquela ponta, prende na ventana

Vamos pro Jardim São Paulo
se você faltar na escola
Amanda fica com você
então cabula e esquece a bola

Lembra aquele dia?
O campeonato de penalti...
Um banho de mangueira pro vencedor
pra refrescar a tarde quente

E a treta por causa da bolacha
Lembra dessa vez?
Brigaram com a gente
porque no pacote ficou só três

Não dá pra reclamar
Não era do melhor, mas era bom
De quando em quando até rolava
uma lata de Neston


Mas se penso em fartura
logo o tio Amaro me vem
Casa e coração
onde cabe um, cabe cem


E como tudo que nos fez bem
tão logo se foi
deixando lembrança e uma lição:
dê nome ao boi!





sexta-feira, 19 de julho de 2013

Intercâmbio

Tá ouvindo? É mais um bueiro explodindo. A tampa dele só não se vê porque inventaram logo de dropar o esgoto. É como lhe digo, meu garoto. O Rio é aqui e agora. E vamo simbora, qu'já posso ouvir o caveirão. Verão não, turco, caveirão. Não é um tanque, mas também não é qualquer uma viaturazinha não. É blindado. Preto, preto, pretão. Descendo bala pelas portinhola. É só rajada pra cima dos bandido. Um camburão fudido. Preto, verde e rosa. São as cores da nossa cidade maravilhosa. Nada de Grã-Bretanha, Londres, London. Logo ali é Marechal Rondon. Que Istambul, vai tomá no cú. Você já tá pra lá de Marrakesh. Céu de anil, puta que pariu. É primavera árabe. Olhe lá, aquele céu vermelho. "Mo num pa tropi". Tardezinha é assim. Mo num pa tropi do ce ve. Hehe. Pra vc vê. Ali é mais uma upp. Deu um tempo a malandragem, bandido agora tem que saber ceder. Ensinamo pra eles le diplomatiquê. Radical. Que mané dical. Neguin mete o pé mais não, agora é na disciplina, tratamo tudo no melhor estilo congresso nacional.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Atrás da linha amarela

Aqui no último vagão tem que ter lugar. Tem que ter lugar pra gente. Pra gente sentar. Ó, eu sento aqui na grade e faço que escorrego no trilho pra assustar. Pra te assustar, haha. Eu sempre quis me pendurar aqui em cima. Não, peraí, deixa eu ver. Tem guardinha não.

Tô cansado, quero sentar. Vim lá do Capão. Três metrô, um trem. Mais de 20 estação. 

Ainda vou até Sacomã. Aham. Pegar uma da boa. Cê curte? A favela é 500 metro depois. Já chegou a sua? Falô, vai lá.

Ae, não vai nem me desejar boa viagem?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Estopim da fiel


Só briga o fim de semana.
Ele cana. Ela dama.
Ela samba. Ele fama. Cachorro, safado, sacana.
Ele mama. Ela engana. Faz que vai mas não vai, descansa.
Ele mirabola, arquiteta, devana.
Ela desmerece, desaprova, desabona. Pra fora daqui, reclama.
Ele pela janela o barraco inflama.


Segunda-feira, o perito questiona:
Brigou com o marido?
Dotô, faltava fogo na cama...


Terça-feira, o delegado:
Tá aqui por quê, cidadão?
Dotô, pus fogo na cama!

sábado, 26 de maio de 2012

A hora em que o sino toca


 - Sabe Sarah, você é a mais bonita da sala.
 - Mas é como eu te disse, se você quer sonhar com alguma coisa, é só você ir dormir pensando nela o tempo todo.

Era tipo requisito. Everson era bom nisso. Buscar garota na porta da escola. No caminho de volta tentar conquistá-la. Sarah queria ser valorizada, moça nova já querendo ser consagrada. Ele, o desbravador. Ela, a terra não conquistada.

O intento renderia a ele uma maria-mole cor-de-ouro no bar mais nobre, então mais frequentado. Uma proeza para seu reinado.

Sarah fez as honras, foi diplomática. Ele foi logo mostrando seu bloco econômico e ela de cara aderiu ao livre comércio.

No dia seguinte, a primeira dama oficial esbravejou. Na casa branca, no lençol branco não, meu amor. Aquilo não era sangue de moça, Everson argumentou. Que deu um chute na parede enquanto dormia, o dedo até quebrou.

Mas no hospital, em vez de engessar, o médico sentenciou: o Sr. é HIV positivo.

Everson despertou.

sábado, 7 de abril de 2012