sábado, 31 de outubro de 2009

A triste procura triste

A empresa da qual faço parte do quadro de funcionários oferece, diariamente, café da manhã e café da tarde. Geralmente são entregues, pela manhã, pães e café com leite ou chocolate e, pela tarde, biscoitos, frutas, suco, danone ou algo assim.
Ocorre que quem realiza a entrega dos alimentos muita vezes não questiona se estamos interessados e simplesmente os deixam sobre as mesas, inclusive nas mesas em que não há ninguém trabalhando e, por outro lado, quando eles perguntam à pessoa se ela aceita a oferta, em vez de pensar se irá realmente consumir aquele alimento, muitas aceitam sem a intenção de consumir e, de fato, não consomem.

O que acontece? Desperdício!
Pois é, os alimentos ficam sobre as mesas esperando que alguém os tirem de lá. E, não fosse o pessoal da limpeza que sempre pega os alimentos - não sei se para consumo próprio ou para jogar no lixo - a situação seria ainda pior.

Hoje, ao ver que uma quantidade considerável de pães e danones seriam largados sobre uma mesa, na qual um determinado número de funcionários depositaram os alimentos recusados - montaram até uma pirâmide de danones - resolvi pegá-los e entregar a quem fosse de interesse na rua, provavelmente e de preferência, alguém que esteja vivendo em situação de rua.

Assim que acabou o expediente, coloquei-os numa sacola e caí pra dentro do trenzão, lotado como sempre. Tive receio de que os danones fossem amassados ou furados. Por sorte, apenas leves amassões nas embalagens. Fui até a estação Cidade Universitária pra fazer a integração com o Metrô. Fui pela passarela e nada de encontrar alguém que, talvez, os aceitasse. Cheguei na estação Vila Madalena do Metrô, nada naquela rua também. A partir daí, ficaria mais difícil encontrar alguém porque eu estaria dentro do Metrô e, como se sabe, os urubu abominam qualquer um que não esteja no "padrão de comportamento e apresentação pessoal".

No caminho, pensei e resolví que ao chegar na estação que eu desço - Artur Alvim -, ao sair na rua, procuraria por alguém para entregar os pães e os danones. Foi o que fiz.
Olhava pelo alto, ao redor, perguntava aos comerciantes se sabiam de alguém que ficasse pela região e nada. Andei por algumas ruas, e nada de ninguém aparecer.

Lembrei que próximo à minha casa há uma moradora em situação de rua. Decidí que seria a ela que entregaria a fartura.
Embarquei na lotação e nisso comecei a me perguntar, meio surpreso, por que não havia encontrado ninguém até aquele momento. E tô até agora sem resposta.
Chegando no local onde geralmente a mulher fica - um terreno com mato um tanto alto - assim que me aproximei, um cachorro nada amistoso pôs-se a latir e correr em minha direção. Parei - com medo, claro - fiz que ia chamar por ela mas não sabia se chamava ou se me afastava do cachorro. Chamei, mas pelo jeito ela não estava por lá. Se estava, não respondeu. Me afastei e o cachorro sossegou. Fiquei parado em frente ao local por uns minutos aguardando alguma movimentação, e nada. Resolvi vir pra casa e voltar mais tarde.

Fiz uma mula, tomei um banho e saí. Voltei ao local, e nada de encontrar a mulher. Fui pro bar, tomei umas - tava precisando fazia tempo. Antes de voltar pra casa, passei por lá de novo, e nada.

Eu pretendia ir à biblioteca para estudar. Antes disso, tentaria encontrá-la novamente. Quando cheguei na rua, já ví que ela estava "em casa". Ao me aproximar, com a sacola numa das mãos, chamei-a, amiga, eu queria te entregar uns pães. Dessa vez haviam dois cães, ainda mais inóspitos que o da noite anterior; eles quase impediram que nos falássemos. Ela prontamente levantou-se, pois que estava sentada, e, ao caminhar em minha direção, mancava. Não sei se estava ferida ou se é alguma restrição de mobilidade oriunda de anomalia genética, mas mancava. Repeti que havia alguns pães e danones na sacola, ela agradeceu. A entrega foi um tanto quanto conturbada porque os cães avançavam, latindo alto e incessantemente, num feitio ameaçador. Comecei a me distanciar com passos pra trás, não quis virar as costas aos cães com receio de algum ataque traiçoeiro. Uns seis ou sete passos, cães já não viriam mais. A mulher em momento algum enviou comandos para que os cães parassem de latir ou para que fossem deitar. E eu, olhando para ela e para os cães, percebi que havia em seu rosto uma feição de quem já está cansado destas agressões baratas, desta não-tolerância. Ela não disse nada, mas com o olhar gritava, parem com isso.

7 comentários :

Nadja disse...

Oi Primo!
Como vc é lindo!
Benevolencia? revolução Humana?

Anônimo disse...

Eu sempre leio... gosto muito da forma a qual vc escreve... mas o comentário fica exclusivamente destinado a última postagem... Será q enchergamos de verdade, não com os olhos mas com o coração, as pessoas ao nosso redor 24 horas por dia? Se a resposta é sim, então pq algumas passam despercebidas... Se é não, então o q q a gente está fazendo de tão importante, a ponto de nos fazer esquecer umas das nossas maiores obrigações de ser humano (amar o próximo)? Será egoísmo?.............

Obs: Desculpa, aproveitei para desabafar tb.

Anônimo disse...

A propósito, escreva mais, afinal agora vc sabe q alguém mais lê!!!

Anônimo disse...

A propósito, escreva mais, afinal agora vc sabe q alguém mais lê!!!

Menegum disse...

Antes de nada mais, obrigado pelos comentários.

A respeito do que foi dito, o que penso, resumidamente, é o seguinte: Não, não pensamos o todo nas pessoas que estão ao nosso redor; o ser humano é egoísta por natureza, uns mais, outros menos, o que não nos impede que tenhamos consciência crítica e que façamos o mínimo para mudar pelo menos o dia de alguém pra melhor.

Vem comigo quem está disposto a mudar a VIDA de vários, se é que vcs ainda distinguem UNIÃO de açucar...

E logo, logo, mais texto por aqui. A gente tem que viver pra escrever alguma coisa, não é isso?
Ou seria viver alguma coisa pra escrever?
Quem se importa...

Menegum disse...

Ah, desabafos são muitíssimos bem-vindos!!!

LEANDRO LUZ disse...

Muito bom. Cheio de subtexto... percebo as camadas sociais em choque, convivendo ora em paz ora em choque. Lado a lado na grande cidade que não vê ninguém e que faz de todos nós seres anônimos...